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» » » “Para inovar no agro precisamos ser “crianças” por Leonardo Menegatti

 Já se vão cerca de 20 anos que faço parte do vasto universo do agronegócio.
É estranho pensar que, ao mesmo tempo que consideramos isso um período de tempo grande, temos também a visão de que é só o começo de uma história, uma pequena parcela da vida da gente.
Um dos meus maiores prazeres dentro desse tempo foi estar em contato com pessoas, com histórias. E algumas destas histórias me fazem refletir sobre o papel que nós, membros ativos do setor, representamos na vida das pessoas.
Esta é uma das histórias que conheci e acompanhei em minha trajetória, talvez, a que eu mais me lembre com detalhes.
Era um menino. A história dele começa como a de muitos outros meninos e meninas no campo. Uma paixão desperta pela sensação gostosa de lembrar como o cheiro da terra, do mato, entrava pelas narinas e preenchia tudo de paz e curiosidade.
Era sua primeira recordação dessa parceria, talvez a mais forte dela.
Existia um laço forte de união que ligava o menino e o campo: seu pai, a figura que ele tanto amava e admirava desde quando nem podia se lembrar, e que quando comprou uma fazenda fez surgir um novo horizonte na trajetória de seu filho, que mudaria tudo, para sempre.
O menino torcia para que os dias passassem rapidamente e chegasse o momento que retornaria à fazenda. Era lá que ele aprendia, explorava, testava suas teorias e começava a questionar: porque as coisas são feitas assim, se podemos fazer “assado” e ter um resultado melhor?
E aí veio a resposta: as coisas eram feitas assim porque foi essa a maneira que seu pai encontrou de fazer as coisas de forma segura e com certa rentabilidade. Foi um longo processo de aprendizado para ele também, de tentativas e erros ao longo dos anos, para chegar nesse patamar em que ele estava seguro e não desejava inovação.
Na cabeça do menino, à medida que ele crescia, isso não fazia sentido. O desejo de fazer diferente, de pensar por outro ângulo e agir de outra maneira era forte, mas, apesar do respeito à opinião e decisão do pai, isso o incomodava. E foi o que abriu mais um horizonte em sua vida.
Para provar que estava certo e expandir ainda mais sua capacidade de fazer coisas novas, ele se enveredou pelos caminhos da engenharia agronômica, e lá se sentiu em casa novamente. Pôde testar, descobrir, explorar, crescer com os acertos e os erros.
E podia, finalmente, inovar, testando caminhos para isso.
Ele se sentiu mais confiante e preparado do que nunca para ser o agente de mudança na vida de seu pai, e na sua própria vida. Mesmo assim, não conseguiu abrir uma brecha sequer para criar coisas novas, e, depois de anos de sua relação com pai e o campo, o inevitável aconteceu.
O declínio da atividade rural de seu pai chegou, as contas não mais batiam e não houve outra opção. Era o fim daquela jornada deles no campo. E como ficam as histórias contadas e vividas? E a saudade? Era tudo o que restava dentro deles.
Eu fui descobrindo essa história ao longo do tempo, dentro de mim, da minha experiência como guri, depois como estudante, os momentos de dificuldade como empreendedor, e também o sucesso de fazer com que ideias que são parte de mim tenham se tornado reais.
Sim, essa é uma parte da minha história.
E sabe por que faço questão de contar essa história?
Porque não há fase de maior aprendizado, criatividade e inovação que a infância.
É quando tudo é novo, inexplorado, atraente, curioso.
Não somos limitados pela coerência dos adultos. É a fase da vida na qual acrescentamos um monte de informações, em que nos espelhamos em nossa família, amigos, no que o mundo espera de nós.
É a fase que somos inovação em seu estado mais puro, mesmo sem saber!
A inquietação de uma criança e seu desejo de inovar. Tá aí uma coisa que nunca deveríamos perder.
O desejo de tocar, de sentir coisas novas, de testar se tal solução funciona mesmo – e o aprendizado que fica quando elas não dão tão certo assim; a curiosidade com o que já está feito, mas não sabemos como funciona, e o feeling infantil do “porque isso ainda não foi criado se é uma ideia tão boa? ”.
Muitas coisas são feitas todos os dias. Muitas ideias são pensadas ao mesmo tempo, por pessoas diferentes, em lugares diferentes. Mas só quem se dispõe a passar por todo processo, as dificuldades e crescimento, o aprendizado, fazer, errar, acertar, mudar, agregar... pode, na essência da palavra, desfrutar do que é inovar.
Convido vocês agora para uma reflexão: qual foi a última vez que você ouviu o que sua criança interior tem a dizer e lhe ensinar?
Acho que é hora de inovarmos e criarmos como “crianças”, para melhorarmos o mundo das próximas crianças que virão, sem aspas.
Leonardo Menegatti é engenheiro agrônomo (Esalq/USP) e CEO da InCeres.
Saiba mais sobre a InCeres em http://www.inceres.com.br



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