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» » » » » Por que a teoria do 'boi bombeiro' no Pantanal, citada pela ministra da Agricultura, é mito

 A ministra da Agricultura, Tereza Cristina, afirmou nesta sexta-feira (09) em audiência pública no Senado que as queimadas que têm consumido o Pantanal seriam menos intensas caso houvesse mais gado no bioma.

Ao comer capim seco e inflamável, segundo ela, o boi acabaria prevenindo o avanço do fogo.

A ministra não é a única a defender o "boi bombeiro".

Foto: Compre Rural


O presidente da República, Jair Bolsonaro, e o titular do Meio Ambiente, Ricardo Salles já defenderam que uma suposta "perseguição" à criação de gado solto na região seria uma das razões para a piora das queimadas na região, além das restrições ao manejo do fogo em pastagens e em reservas ambientais.

O argumento é que proibições às queimadas preventivas em fazendas e em reservas ambientais provocaram o acúmulo de matéria orgânica (mato, galhos e folhas secas), que depois serviu de combustível para os incêndios.

Essas teorias, porém, não procedem. Especialistas ouvidos pela BBC News Brasil explicam que a criação de gado aumentou no Pantanal nos últimos anos, ao invés de diminuir — o que contradiz a ideia de que o boi pantaneiro seria fundamental para impedir incêndios.

Além disso, a queima preventiva não foi proibida totalmente nos últimos dois anos — só foi restrita pelos governos estaduais durante a estação seca, seguindo orientações do próprio Ministério do Meio Ambiente. E área coberta por unidades de conservação na região é ínfima, de menos de 5% do bioma.

Na verdade, um dos principais motivos para os incêndios é o clima: o Pantanal vive a pior seca dos últimos 60 anos, segundo o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden).

As queimadas no Pantanal neste ano são consideradas as piores em décadas. Cerca de 15% da área do bioma já foi consumida pelo fogo até agora. A labaredas já destruíram uma área de 2,3 milhões de hectares no bioma — o equivalente ao Estado de Sergipe, ou quatro vezes a área do Distrito Federal.

Argumentos do governo

"O que aconteceu com o Pantanal? Eles estão há dois anos sem fazer o 'fogo frio' (queima controlada), que (é) esse fogo preventivo, o manejo preventivo do fogo. Por questões ideológicas, questões administrativas", disse Salles no último domingo (13/08), em entrevista ao canal do YouTube deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP).

"Segundo aspecto que também foi chamada a nossa atenção lá: cada vez mais vem se perseguindo a criação de gado solto no Pantanal. Só que é o gado solto que come o capim. Então, diminui também essa massa orgânica (inflamável). E você não deixar de criar gado de maneira extensiva lá também propiciou um aumento substancial desse material orgânico", disse o ministro do Meio Ambiente — sem, no entanto, mostrar evidências de que a criação de gado na região tenha diminuído.

O mesmo discurso é adotado pelo presidente da República. "Se o gado não come capim em determinadas áreas, acumula capim seco e graveto sem vida e, quando vem o fogo (...), vai embora", disse Bolsonaro em uma live no fim de agosto.

Na verdade, tanto Bolsonaro quanto o ministro ecoam uma tese defendida pelo agrônomo e pesquisador da Embrapa Evaristo de Miranda, atual chefe da Embrapa Territorial.

Em entrevista à rádio Jovem Pan no fim de agosto, Miranda culpou o declínio da pecuária no Pantanal e a criação de reservas ambientais na região pelo fogo. "Quando a pecuária declina, por razões econômicas, de competitividade etc., quando se retira o boi, como se retirou de grandes reservas que se criaram na região, reservas ecológicas, a RPPN (Reserva Particular do Patrimônio Natural) do Sesc Pantanal, o que acontece nesses lugares, tirando o gado e cercando? O capim cresce muito e acumula muita massa vegetal. Na hora em que pega fogo, é um fogo muito intenso", disse ele.

A reportagem da BBC News Brasil procurou o Ibama e o Ministério do Meio Ambiente para comentários sobre o assunto, mas até o momento não houve resposta.

Rebanho aumentou e pastagens também

Especialistas ouvidos pela BBC dizem que o gado criado solto ajuda, de fato, a reduzir a quantidade de matéria prima disponível para queima — mas não é a redução na pecuária que explica os incêndios deste ano.

Os dados da Pesquisa Pecuária Municipal do IBGE sobre os rebanhos bovinos de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul nas últimas décadas e as informações do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) sobre os focos de calor no bioma Pantanal não indicam que haja correlação entre uma coisa e outra.

Segundo os técnicos, há pelo menos dois problemas com a teoria do "boi bombeiro".

O primeiro é que o rebanho bovino no Pantanal está crescendo nos últimos anos, ao invés de diminuir. Além disso, no caso da reserva natural citada por Miranda, o fogo teria começado justamente em uma fazenda de criação de gado, segundo perícia — e não na área de preservação.

"Os dados da Pesquisa Pecuária Municipal, que engloba 22 municípios no MT e MS que fazem parte do Pantanal, apontam um crescimento do rebanho, e não uma redução. O último dado é de 2018, mas ele vem crescendo desde os anos 1999. Nos últimos 19 anos, está crescendo. Então, não tem nenhuma lógica dizer que diminuiu a criação de boi no Pantanal", diz o engenheiro florestal e coordenador do projeto Mapbiomas, Tasso Azevedo.

Por: André Shalders - @andreshalders - Da BBC News Brasil em Brasília

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